Kali
A destruição que é começo.
Pele escura como o tempo profundo, língua de fora, colar de cabeças, dançando sobre o próprio Shiva: Kali é a face da divindade que o olhar apressado confunde com terror. Seu nome vem de kāla — o tempo, aquilo que tudo devora. Ela é a senhora do que expira para dar lugar.
O olhar ocidental a leu como "má". Na devoção hindu, porém, Kali é Mãe — a compaixão feroz que destrói exatamente o que aprisiona: a ilusão, o apego, o ego que se acha eterno. Seus filhos não a temem; correm para o colo dela quando tudo desmorona.
Para a psicologia dos arquétipos, Kali é o encontro com a sombra: aquilo que precisa terminar em nós para que algo verdadeiro comece. Nem toda destruição é perda. Algumas são parto.
O que em você já morreu — e você continua carregando o corpo?
