Maria Padilha
Enterraram María na Espanha. Mas nenhum túmulo foi capaz de conter Padilha.
No século XIV, María de Padilla se envolveu com Pedro I de Castela. Teve filhos com o rei, viveu ao lado dele, dividiu poder e inimigos — e só foi reconhecida como rainha depois de morrer, quando o próprio Pedro declarou diante das cortes que aquele sempre havia sido o casamento verdadeiro. Um reconhecimento que chegou tarde demais para servir de proteção.
Sua história atravessou crônicas, romances, lendas e registros de feitiçaria. Diziam que havia enfeitiçado o rei, que fazia trabalhos, que tinha poder sobre a vontade dele. Era a explicação disponível na época para uma mulher que ocupava espaço sem ter direito formal a ele: se manda no rei, deve ser bruxa.
No Brasil, séculos depois e a um oceano de distância, esse nome foi recriado nos terreiros. Maria Padilha se tornou uma das grandes expressões da Pomba Gira — não como continuação histórica da mulher de Castela, mas como algo novo, feito daquilo que o povo entendeu do nome dela: soberania, desejo, resposta rápida e nenhuma vergonha do próprio poder.
Enterraram María na Espanha. Mas nenhum túmulo foi capaz de conter Padilha.
O que em você só foi reconhecido depois?
